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Adeus às piadinhas

Por: JOTAImprimirVisualizar em PDF
César* era estagiário em um escritório de pequeno porte quando recebeu uma tarefa das mais corriqueiras: fazer uma pesquisa para uma ação que seria patrocinada pela banca. Recebeu de um dos advogados um pen drive com textos sobre o assunto, mas percebeu que, no meio dos documentos de trabalho, havia um arquivo que destoava. Era um vídeo pornográfico entre um homem e uma mulher.

No dia seguinte, César comentou o ocorrido com uma colega de trabalho, e descobriu que o vídeo fora colocado de forma intencional no pen drive. O objetivo, de acordo com a colega, era descobrir se o estagiário era gay.

"[O advogado] queria ver se eu comentava algo", disse César, que é homossexual.

Lésbica, a advogada Ana Luisa Ferreira também acumulou experiências ruins em escritórios nos quais atuou. Ela não se sentia confortável em falar sobre a sua vida pessoal ou sobre sua orientação sexual em seus locais de trabalho, e nunca pôde levar a namorada a eventos do escritório, como confraternizações de fim de ano.

"Não tinha nenhuma abertura, era tabu", lembra a advogada, que iniciou a carreira atuando na área jurídica de uma empresa e em um escritório de médio porte.

Apesar de parecerem extremas, as situações narradas por César e Ana Luisa não são únicas.

Segundo a presidente da Comissão de Diversidade Sexual da seccional paulista da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), Adriana Galvão Moura Abílio, a impossibilidade de contar detalhes de suas vidas e o medo de sofrerem retaliações não são incomuns entre profissionais LGBTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros). O fato, de acordo com ela, pode provocar isolamento e desconforto nos locais de trabalho.

Buscando reverter esse quadro, escritórios de advocacia têm investido em grupos para pensar a inclusão de profissionais LGBTs. A bancas projetam, como resultado, o aumento da produtividade e o maior entrosamento entre os funcionários. Mas, com a nova política, veio o adeus às piadinhas.

 

Escritórios

Garantir um ambiente de trabalho mais harmônico. Segundo Adriana, é isso que os escritórios de advocacia buscam ao fundarem núcleos LGBTs. Ela diz que há uma tendência entre as bancas de pensarem políticas para esse segmento.

Exemplo é o escritório Mattos Filho, que lançou, em setembro, o MFriendly. O grupo tem como objetivo discutir a questão LGBT no escritório.

O sócio Roberto Quiroga, que integra o grupo, diz que o núcleo foi criado a partir do depoimento de um advogado gay. "Ele disse que sentia que dentro do escritório precisaria ter algum tipo de política que discutisse temas relacionados [aos LGBT]", afirmou.

O próximo passo foi a criação de um grupo, que originalmente era composto por 12 pessoas. As histórias, então, começaram a surgir.

"Algumas pessoas [do escritório] tinham que mudar os gêneros nas conversas por terem medo de serem discriminadas", conta Quiroga.

Para ele, o tema não pode passar em branco nos escritórios. "Não podemos ser neutros nesse tema, precisamos ser afirmativos", diz.

Atualmente, o Mfriendly conta com a participação de 150 pessoas – entre advogados, estagiários e funcionários do administrativo. O grupo realiza reuniões periódicas para organizar palestras e pensar políticas voltadas ao público LGBT. "A ideia é que esses profissionais sejam absolutamente acolhidos no escritório, sem qualquer tipo de diferença", diz.

Segundo Quiroga, a banca planeja atender de forma gratuita causas ligadas à questão LGBT, como casos de discriminação.

O escritório Trench, Rossi e Watanabe possui iniciativa similar, o Comitê de Diversidade. O grupo existe desde 2012. A banca foi a primeira do país a aderir, em 2016, ao Fórum de Empresas e Direitos LGBT, organização que tem por objetivo garantir o respeito à população LGBT em ambientes de trabalho.

"Assumimos alguns compromissos de ações afirmativas em relação à promoção e proteção dos direitos LGBTs", diz Letícia Ribeiro, que atua no Comitê.

Ao aderir ao Fórum, o escritório assinou um documento denominado "10 Compromissos da Empresa com a Promoção dos Direitos LGBT". Entre as medidas estão a promoção da igualdade e oportunidade para as pessoas LGBTs, a promoção de ações de desenvolvimento profissional de LGBTs, o respeito às pessoas LGBTs na comunicação, marketing e desenvolvimento de produtos.

De acordo com as advogadas Letícia Ribeiro e Helen Naves, o próximo passo é garantir que o escritório trabalhe com fornecedores que também respeitem os direitos dos LGBTs em seus espaços de trabalho.

"Queremos contaminar as pessoas que trabalham conosco para que elas também se preocupem com o tema", projeta Letícia.

Helen cita que, além do LGBT, o escritório possui comitês para pensar a questão das mulheres, dos deficientes e a questão racial.

 

Resultados

Após a implementação dos comitês, advogados são unânimes em ressaltar melhorias no ambiente de trabalho. Segundo o advogado Werner Grau, do Pinheiro Neto Advogados, a banca presenciou uma maior interação entre os funcionários após instalar sua Comissão de Diversidade.

Além de palestras e sessões de cinema sobre a temática LGBT, o escritório, de acordo com Grau, permite que parceiros em relações homoafetivas tenham direito ao plano de saúde, mesmo em casos de uniões estáveis não oficializadas. O benefício também é disponibilizado nas demais bancas ouvidas pelo JOTA.

Letícia diz que recebeu diversas visitas de funcionários do escritório agradecendo a inciativa de pensar a temática LGBT. Um advogado, segundo ela, chegou a contar que não se sentia confortável em revelar sua orientação sexual à família, mas podia discutir o assunto no escritório.

Quiroga diz que percebeu um aumento de produtividade após a instalação do Mfriendly."As pessoas sabem que não vai haver discriminação em sua evolução profissional", diz.

Segundo Adriana o aumento de produtividade é comum, já que os funcionários conseguem viver o período de trabalho de uma forma mais tranquila. Ela cita que em ambientes não acolhedores mesmo as conversas sobre o que cada um fez no fim de semana podem ser motivo de ansiedade entre funcionários LGBTs. "Automaticamente a produtividade fica comprometida", afirma.

"Se a pessoa está feliz e pode revelar quem é, ela tem maior plenitude para vivenciar o ambiente de trabalho", finaliza a advogada.

A impossibilidade de contar detalhes de sua vida pessoal foi vivida por César. No escritório em que atuou como estagiário, não tinha problemas em assumir a orientação sexual, mas começou a notar que virou alvo de fofocas e cometários maldosos.

"Um dia um advogado me chamou para conversar e disse que era bom eu evitar falar da minha vida pessoal no ambiente de trabalho, pois poderia ficar um clima chato no escritório", conta.

 

Novos comitês

Adriana diz receber diversas consultas de sócios de escritórios interessados em fundar comitês sobre a temática LGBT em suas bancas. Ela tem três orientações nesses casos:

Em primeiro lugar, é preciso encontrar pessoas que tenham interesse no tema, mesmo que não sejam LGBTs. "São pessoas que, sendo ou não sendo LGBTs, são sensíveis a discutirem a matéria. E não adianta se for para cumprir tabela", afirma.

O segundo passo é criar um espaço onde as pessoas possam se expor, se reunir e trocar ideias. Por fim, o terceiro passo é "multiplicar", transportando as discussões para os clientes e para a sociedade na qual o escritório está inserido.

 

Transexuais

Apesar das avançadas discussões envolvendo lésbicas, gays e bissexuais, ainda é muito baixa a atuação de transexuais em escritórios de advocacia. O cenário, de acordo com a advogada paulista Márcia Rocha, deve ser alterado.

Márcia foi a primeira advogada transexual a conseguir que em sua carteira da Ordem constasse seu nome social, ou seja, o nome segundo o qual ela quer ser reconhecida. O feito ocorreu no final de 2016, mas ela diz que esse ano uma advogada carioca realizou pedido semelhante.

Márcia Rocha: a advogada travesti que mudou a OAB

Ela diz não conhecer advogados transexuais que atuem em escritórios, mas acredita que esse cenário vá mudar. "É uma questão de tempo. Se ainda não há, em breve haverá", afirma.

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